As batatas o perseguiam. Cozinhavam-se em panelas promíscuas, que aceitavam aquecer também nabos e pedaços de acém - carne de panela que por mais de uma hora, rebolava-se na água fervente.
Seu habitat era um porão, com piso de terra, que subia por parte das paredes de tijolos a vista. O fogareiro que servia de cama para as panelas de lupanares ficava ao lado do colchão que dormia, já umedecido pelo contato com o solo. A luz, que o alumiava a noite, provinha de um abajur sem cúpula, que nu apresentava a lâmpada arredondada, igual ao corpo do habitante daquela caverna urbana. Pendulava sobre o baú onde estavam suas escassas vestes em forma de saco.
Solanáceo era seu nome de batismo. Perdera braços e pernas em um choque elétrico quando trabalhava em uma torre de linha viva, que transmitia energia elétrica para a cidade. Seus familiares procuraram o sindicato, que, através da assessoria jurídica, obteve indenização judicial e pensão para ele. Porém, os parentes utilizaram-se da indenização e roubaram seus proventos mensais, sob o pretexto de cuidá-lo em casa.
Ao saber disso, gritava, no quarto, pedindo para morar sozinho. Seu único cunhado decidiu dar o porão da casa para ele, enquanto a irmã aceitou cuidá-lo. Dava a ele, quase todos os dias, batatas, que se assemelhavam ao atual formato de seu corpo.
- Temos de levá-lo de volta para casa, senão morre - dizia a irmã. Todavia seu cunhado afirmava que era melhor ele morar sozinho. Solanáceo, com sua ex-mulher, adotou uma recém-nascida, pouco antes do acidente. A mulher descobriu, no hospital, enquanto cuidava do marido, que sofria de câncer no fígado. Resistiu poucos meses. Significa que, se o aleijado morrer, a pensão ficará para o cunhado e a irmã dele.
Sua irmã cuidava de Solanáceo. Banhava-o com esponja úmida. Dava-lhe pão de forno, pela manhã, batatas com carne de panela, ao meio-dia, e nabos cozidos, á noite. Limpava seus excrementos. Deixava o saco de batatas, os nabos e o pão ao seu lado. Antes, rezava ao seu lado, apesar da recusa dele em participar daquele ritual.
Ele possuía rádio, que sua irmã deixava em difusora evangélica. Não tinha televisor ou livros e revistas para leitura - detestava a programação radiofônica, recusara-se a consumir imagens e sentia-se impedido de virar as páginas.
Observava as batatas mudando de cor conforme a luz ao dia. Eram ocres, pela manhã, esbranquiçadas, na metade da manhã é quando o sol atingia o porão diretamente -, alaranjadas, ao meio-dia, marrons à tarde e novamente ocres, sob a luz da lâmpada, à noite.
Era a essência de seu universo redondo. As batatas eram ovais, a lâmpada, esférica, seu corpo, oblongo, e as paredes, a sua volta, devido a terra, arredondavam-se.
Os ratos e baratas pouco freqüentavam aquele porão. Morriam na entrada, devido aos inseticidas espalhados nos cantos pela irmã. Sonhava que estava no banheiro de casa, tomando banho ou na cozinha, tomando café. Imaginava-se caminhando e, por várias vezes, sentia coceira nos membros que não mais existiam. Gritava e era atendido pela mesma irmã, que tinha a incumbência de cuidar da filha adotiva de Solanáceo.
Acordou, certa manhã, com uma minhoca em seu peito. Observou-a, calado. Já havia visto outros seres sobre seu corpo. Fazia espasmos para livrar-se deles. Porém, as vezes, observava-os em sua jornada. Pensou: também posso locomover-me assim.
Com os músculos das costas, começou uma pequena jornada, rumo a saída do porão. Por um tempo que não conseguiu calcular, moveu suas costas sobre a terra, até a escada de três degraus que o separava da porta aberta. Pôs a nuca no degrau de terra e forçou o pescoço para atingir o próximo. Conseguiu. No terceiro degrau, seu corpo estava por extenso na escada. Sua musculatura doía, sob o frio do piso.
Via a luz sobre as folhas das árvores, no pátio de casa. Seu corpo, suado e polvilhado de terra, mantinha-se hirto ou ereto, como o leitor preferir. Em um último esforço, sentiu uma fisgada às costas. Seu corpo rolou pelo lado da escada, batendo contra o saco de batatas - tubérculo que seu cunhado, pastor de igreja evangélica, sabia que Solanáceo detestava tanto quanto a religião que apregoavam.
terça-feira, 9 de junho de 2009
segunda-feira, 8 de junho de 2009
HQ (para que servem as histórias em quadrinhos infantis?)
As histórias em quadrinhos infantis são a porta de entrada da leitura para muitas crianças. É aquele momento em que não é a responsabilidade escolar que as faz devorar narrativas cuja quantidade de texto muitas vezes é superior a imagem, se comparado a maioria dos filmes legendados. Permite que a criança fique no seu quarto, solitária, na companhia de desenhos e letras. Estimular a leitura de histórias em quadrinhos é essencial para desenvolver uma criança leitora. Porém é preciso o adulto estar atento. Histórias em quadrinhos não são apenas para crianças. Há muitas escritas para adultos e tratam de temas complexos, como crenças religiosas, sistemas políticos, trechos da história da humanidade, posturas filosóficas, frustrações, sexo, entre outros. É necessário saber a diferença entre quais HQs são recomendáveis ou não para cada faixa etária. No Brasil, as crianças normalmente são apresentadas para as Hqs de Maurício de Sousa, na infância, e, mais recentemente, na adolescência, devido ao Turma da Mônica Jovem. Todavia há diversas outras possibilidades de leitura. Eu mesmo desenvolvo os personagens infantis Meiguinha e Polentinha (http://meiguinhaepolentinha.blogspot.com/). E também tenho quadrinhos adultos em http://contosemquadrinhos.blogspot.com/. Há muito mais autores produzindo conteúdo. Basta se dispor a conversas e pesquisar sobre o assunto.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Morgana e Lúcio - Por Leandro Malósi Dóro
Para Lima Trindade
Ele fechava as mãos até sentir encravar na palma as unhas compridas e vermelhas. Sob seus cabelos longos e negros, Lúcio se excitava com o pulsar das próprias veias do pescoço. Elas tinham o mesmo ritmo da bateria eletrônica que ecoava pelas paredes negras daquela boate cuja escuridão era interrompida por holofotes multicores. A respiração era profunda. As coxas batiam uma na outra, por baixo da minisaia vermelha. Seus olhos, com cílios postiços, seguiam os movimentos de Morgana, que dançava para a platéia exibindo seios de silicone e cintura que parecia feminina. Ancas um pouco mais gordas do que as recomendáveis, mas linda, apesar do queixo excessivamente masculino.
Morgana fazia mímica para as canções, como se fosse a cantora. Rebolava-se e emitia olhares sensuais, iguais ao que Lúcio faria se lhe dessem oportunidade. Às vezes Morgana parava, pedia para o DJ diminuir a intensidade da música e contava piadas. Lúcio, então, acariciava os próprios seios de papelão. Desconhecia como ter esse humor e carisma. Morgana mostrou a platéia os seios de silicone. Lúcio queria pôr silicone, também.
Os amigos de Lúcio arrumavam os cabelos longos, davam palmadas em sua bunda e riam. Pareciam adorar aquelas brincadeiras. Morgana, recoberta de suor, anunciou o fim do espetáculo. Desceu as escadarias, mostrando as coxas torneadas e depiladas sob a minissaia. Recebeu mais aplausos e subiu as escadas, rumo ao bar. As músicas continuaram a ribombar em ritmo cardíaco acelerado.
Lúcio recordou as tardes que ensaiou coreografias, em frente ao televisor — igual à Madona, Britney, Rhianna, Beyonce, Fergie e quem mais eram consideradas Top 20, no programa de TV. Britney ecoou na boate, como se fosse um mantra. O palco, vazio e sem seguranças, convidava Lúcio a subir as escadarias. E o fez. Cada feixe de luzes que passava a sua frente parecia um obstáculo. Sua pulsação ultrapassou ao da bateria eletrônica. No canto mais escuro do palco, interpretou os primeiros passos daquela canção.
Ninguém parecia observá-lo e o palco aparentava querer ser ocupado. A cada passo, buscava chegar mais próximo aos holofotes. Chegou ao miolo do palco no final da canção. Tocou uma Fergie, na exata sequencia do Top 20 da semana anterior. Iniciou os movimentos, balbuciando uma letra que conhecia o significado graças às legendas disponibilizadas pela emissora de TV.
Percebeu um pequeno foco de luz seguindo-o. Continuou a dançar como desconhecesse esse holofote. Notou alguns olhares entre o público. Seriam gulosos, curiosos, desaprovadores? Desconhecia e pouco se importava. Queria suar e dançar. Agora era Madona cantando Like a Virgin. Lúcio subiu a saia até quase mostrar as calcinhas.
Nenhuma das vezes viu Morgana a observá-lo. Ela o desprezava?
O suor também salpicou a pele de Lúcio. Notou outro andrógino dançando ao seu lado. Deixou-o substituí-lo no palco e desceu para coreografar diante de um grupo de amigos que o aplaudiu. Agradeceu e subiu as escadas, rumo ao bar. Morgana estava cercada por dançarinos de braços fortes. Eram os Go-Go Boys que se apresentariam em breve.
Lúcio sentou-se em uma mesa próxima e aguardou um olá de Morgana. Recebeu uma mirada de soslaio, que parecia de fera protegendo-se de um oponente. Lúcio deu sorrisos. Dividiu a mesa com um rapaz espinhento que em nada o interessava, entretanto era uma boa desculpa para ficar ali. Nada no Top 20 o ensinara a agir nesses momentos. Intuiu o que deveria fazer se recordando de cenas da novela das oito.
Aproximou-se com passos de modelo, com um pé exatamente a frente do outro. Deu três beijos em Morgana:
— Olá, sou sua fã.
As lentes de contato azuis de Morgana pareciam querer sair dos olhos.
Lúcio recordou desses momentos horas depois, enquanto fazia um oral em Morgana, ambos deitados em uma cama com lençóis de cetim. Esperou-a jorrar em sua boca. Engoliu, olhou no entorno do quitinete da travesti, e então pediu:
— Quero dividir o palco com você.
Morgana sorriu. Acariciou os cabelos do rapaz e lhe disse:
— Um dia, meu lindo.
Virou-se para Lúcio penetrá-la.
Ele fechava as mãos até sentir encravar na palma as unhas compridas e vermelhas. Sob seus cabelos longos e negros, Lúcio se excitava com o pulsar das próprias veias do pescoço. Elas tinham o mesmo ritmo da bateria eletrônica que ecoava pelas paredes negras daquela boate cuja escuridão era interrompida por holofotes multicores. A respiração era profunda. As coxas batiam uma na outra, por baixo da minisaia vermelha. Seus olhos, com cílios postiços, seguiam os movimentos de Morgana, que dançava para a platéia exibindo seios de silicone e cintura que parecia feminina. Ancas um pouco mais gordas do que as recomendáveis, mas linda, apesar do queixo excessivamente masculino.
Morgana fazia mímica para as canções, como se fosse a cantora. Rebolava-se e emitia olhares sensuais, iguais ao que Lúcio faria se lhe dessem oportunidade. Às vezes Morgana parava, pedia para o DJ diminuir a intensidade da música e contava piadas. Lúcio, então, acariciava os próprios seios de papelão. Desconhecia como ter esse humor e carisma. Morgana mostrou a platéia os seios de silicone. Lúcio queria pôr silicone, também.
Os amigos de Lúcio arrumavam os cabelos longos, davam palmadas em sua bunda e riam. Pareciam adorar aquelas brincadeiras. Morgana, recoberta de suor, anunciou o fim do espetáculo. Desceu as escadarias, mostrando as coxas torneadas e depiladas sob a minissaia. Recebeu mais aplausos e subiu as escadas, rumo ao bar. As músicas continuaram a ribombar em ritmo cardíaco acelerado.
Lúcio recordou as tardes que ensaiou coreografias, em frente ao televisor — igual à Madona, Britney, Rhianna, Beyonce, Fergie e quem mais eram consideradas Top 20, no programa de TV. Britney ecoou na boate, como se fosse um mantra. O palco, vazio e sem seguranças, convidava Lúcio a subir as escadarias. E o fez. Cada feixe de luzes que passava a sua frente parecia um obstáculo. Sua pulsação ultrapassou ao da bateria eletrônica. No canto mais escuro do palco, interpretou os primeiros passos daquela canção.
Ninguém parecia observá-lo e o palco aparentava querer ser ocupado. A cada passo, buscava chegar mais próximo aos holofotes. Chegou ao miolo do palco no final da canção. Tocou uma Fergie, na exata sequencia do Top 20 da semana anterior. Iniciou os movimentos, balbuciando uma letra que conhecia o significado graças às legendas disponibilizadas pela emissora de TV.
Percebeu um pequeno foco de luz seguindo-o. Continuou a dançar como desconhecesse esse holofote. Notou alguns olhares entre o público. Seriam gulosos, curiosos, desaprovadores? Desconhecia e pouco se importava. Queria suar e dançar. Agora era Madona cantando Like a Virgin. Lúcio subiu a saia até quase mostrar as calcinhas.
Nenhuma das vezes viu Morgana a observá-lo. Ela o desprezava?
O suor também salpicou a pele de Lúcio. Notou outro andrógino dançando ao seu lado. Deixou-o substituí-lo no palco e desceu para coreografar diante de um grupo de amigos que o aplaudiu. Agradeceu e subiu as escadas, rumo ao bar. Morgana estava cercada por dançarinos de braços fortes. Eram os Go-Go Boys que se apresentariam em breve.
Lúcio sentou-se em uma mesa próxima e aguardou um olá de Morgana. Recebeu uma mirada de soslaio, que parecia de fera protegendo-se de um oponente. Lúcio deu sorrisos. Dividiu a mesa com um rapaz espinhento que em nada o interessava, entretanto era uma boa desculpa para ficar ali. Nada no Top 20 o ensinara a agir nesses momentos. Intuiu o que deveria fazer se recordando de cenas da novela das oito.
Aproximou-se com passos de modelo, com um pé exatamente a frente do outro. Deu três beijos em Morgana:
— Olá, sou sua fã.
As lentes de contato azuis de Morgana pareciam querer sair dos olhos.
Lúcio recordou desses momentos horas depois, enquanto fazia um oral em Morgana, ambos deitados em uma cama com lençóis de cetim. Esperou-a jorrar em sua boca. Engoliu, olhou no entorno do quitinete da travesti, e então pediu:
— Quero dividir o palco com você.
Morgana sorriu. Acariciou os cabelos do rapaz e lhe disse:
— Um dia, meu lindo.
Virou-se para Lúcio penetrá-la.
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domingo, 3 de maio de 2009
Glande - por Leandro Malósi Dóro
Decepou a própria glande com um fio de nylon. Viu-a variar de rosado, para vermelho, roxo e preto. E entre uma mudança e outra de cor notou tons azuis e lilases. E desesperou ao compreender que desconhecia a totalidade dos nomes da escala tonal. Por isso precisava se sacrificar. Para eliminar ignorância se deve extirpar o prazer.
Tentou decorar cores, mas por quase um semestre procuro isso das mais diversas formas. Pintou seu apartamento de branco. Colou cartolinas pelas paredes, janelas e portas. Comprou e leu livros sobre cores e assistiu nascer e pôr-do-sol para procurar todas as cores possíveis. Já se desapegara das cores da internet, que são tão repetitivas e banais. Interessava-se pelas cores da natureza, tão difíceis de decorar e perceber. Pediu às gráficas que conhecia os cadernos com escalas de pantone, CMYK, RGB, LAB e todos os demais formatos gráficos existentes.
Variava diariamente a própria dieta para ver quais tons de marrom seu intestino produzia. E surpreendia-se por as vezes desconhecer alguma variação de rubro. A pele também mudava de cor. Mesmo uma tez rosada possuía tons de amarelo, azul e branco. Qualquer pessoa possuía também variações que a tornava fascinante. O mundo é colorido.
O televisor também o acompanhava. Embora as cores televisivas muitas vezes parecessem chapadas, elas variavam com tal rapidez que lhe forçava a citar o maior número possível antes que trocasse de canal e até mesmo o mofo da comida apresentava-lhe surpresas.
Comprou roupa de cama branca e pijamas da mesma cor. Colocou como meta decorar o nome de todas as cores desde que fora demitido da gráfica onde atuou por onze anos. Um rapaz que há pouco mais de um ano se tornou seu colega o humilhava com os conhecimentos sobre cor. Como isso pode acontecer? Sempre foi um gênio. Sempre foi dedicado. Mas aparece um menino e o suplanta. Impensável.
Fora demitido e dedicou-se as cores. Se conhecer todas volta a procurar trabalho. Porém o sacrifício de perder emprego, amigos, flertes e diversão era pouco. Os únicos entretenimentos que se permitia eram masturbação e procura de sexo casual, em algumas páginas de internet.
Concluiu que isso o impedia de atingir a sabedoria. Pegou o fio de nylon e extirpou lentamente a própria glande para se livrar dos impedimentos que o corpo lhe impunha.
Desmaiou no piso branco e frio, ao ver a glande se descolar do pênis. E observou o branco variar do bege ao vermelho em segundos. Fascinou-se por saber como a escala cromática é ampla. E permitiu-se sentir o calor sexual do quente sangue do pênis escorrendo pelo seu ventre.
Tentou decorar cores, mas por quase um semestre procuro isso das mais diversas formas. Pintou seu apartamento de branco. Colou cartolinas pelas paredes, janelas e portas. Comprou e leu livros sobre cores e assistiu nascer e pôr-do-sol para procurar todas as cores possíveis. Já se desapegara das cores da internet, que são tão repetitivas e banais. Interessava-se pelas cores da natureza, tão difíceis de decorar e perceber. Pediu às gráficas que conhecia os cadernos com escalas de pantone, CMYK, RGB, LAB e todos os demais formatos gráficos existentes.
Variava diariamente a própria dieta para ver quais tons de marrom seu intestino produzia. E surpreendia-se por as vezes desconhecer alguma variação de rubro. A pele também mudava de cor. Mesmo uma tez rosada possuía tons de amarelo, azul e branco. Qualquer pessoa possuía também variações que a tornava fascinante. O mundo é colorido.
O televisor também o acompanhava. Embora as cores televisivas muitas vezes parecessem chapadas, elas variavam com tal rapidez que lhe forçava a citar o maior número possível antes que trocasse de canal e até mesmo o mofo da comida apresentava-lhe surpresas.
Comprou roupa de cama branca e pijamas da mesma cor. Colocou como meta decorar o nome de todas as cores desde que fora demitido da gráfica onde atuou por onze anos. Um rapaz que há pouco mais de um ano se tornou seu colega o humilhava com os conhecimentos sobre cor. Como isso pode acontecer? Sempre foi um gênio. Sempre foi dedicado. Mas aparece um menino e o suplanta. Impensável.
Fora demitido e dedicou-se as cores. Se conhecer todas volta a procurar trabalho. Porém o sacrifício de perder emprego, amigos, flertes e diversão era pouco. Os únicos entretenimentos que se permitia eram masturbação e procura de sexo casual, em algumas páginas de internet.
Concluiu que isso o impedia de atingir a sabedoria. Pegou o fio de nylon e extirpou lentamente a própria glande para se livrar dos impedimentos que o corpo lhe impunha.
Desmaiou no piso branco e frio, ao ver a glande se descolar do pênis. E observou o branco variar do bege ao vermelho em segundos. Fascinou-se por saber como a escala cromática é ampla. E permitiu-se sentir o calor sexual do quente sangue do pênis escorrendo pelo seu ventre.
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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Traída - por Leandro Malósi Dóro
Tenho lágrimas nos olhos e vergonha por não ser mais forte. Queria desabafar, porém agora não confio em ninguém. Por isso escrevo. Lembra quando eu, sozinha, tomava café com leite no bar ao lado do meu antigo trabalho? Você se sentou em uma banqueta, ao meu lado, e pediu um expresso. Sorriu, mostrando dentes perfeitos.
– O horário do almoço é um reencontro com a vida – você disse. Corei e correspondi ao seu sorrir.
– Nem me fale. Meu dia ainda será longo – respondi.
Continuou a mirar meus olhos e me falou sobre uma escritora, a Clarice Lispector. Estudei seus contos na escola e aquela lembrança me deixou feliz. Falei sobre quando fiz cursinho pré-vestibular, meus colegas e amores e parei um instante. Nunca havia conversado tanto com uma pessoa que nem sabia quem era. Somente via que você usava calça social preta, sapatos, camisa social amarela, penteado de menino que vai para a escola e sorriso de dentes brancos e perfeitos.
Envergonhei-me dos meus cabelos castanhos desgrenhados, minhas olheiras de quem acordou de madrugada para ir trabalhar e a blusa, cujas alcinhas insistiam em cair pelos braços. Orgulhava-me apenas da minha saia preta, as meias calças e o sapato preto.
Trocamos telefones. À noite, você ligou. Aceitei jantar. Nunca havia ido a um restaurante japonês. Vi isso apenas em novelas. Gostei de sentar-me no chão naqueles tapetes de bambu, os tatames, e comer com os pauzinhos. O nome é rachi? Você contou piadas. Disse que era contador e o quanto gostava de planilhas Excel. Eu, como secretária, mexia com essas planilhas, também.
– Conheci o arquipélago de Fernando de Noronha ano passado. Mergulhei mais de 40 metros no Pontal do Norte – você falou e me convidou para ver as fotos em sua casa. Aceitei como seu eu não soubesse o que desejava. Claro que eu sabia, pois queria o mesmo que você. Em sua casa, tomei café olhando para a vista dos prédios sobre a cidade, tão diferente da casa de periferia, que e divida com uma amiga, onde mirávamos apenas muros.
Fizemos amor em lençóis perfumados isso se repetiu por três meses. Nunca deveria ter me entregado tão rápido. Nunca tive dias tão prazerosos. Nós, recobertos de suor. Ia trabalhar exausta e feliz. Deixei de morar com minha amiga. Foi difícil, para ela, pagar sozinha o aluguel. Nem desconfiei das vezes em que você recebia telefonemas de trabalho e irritava-se. Parecia normal gritar quando se tratava de trabalho. Como fui boba. Você torceu meu braço na saída de um restaurante porque esqueci o casaco e quis voltar para pegá-lo. Pensei que estivesse bêbado.
Perdi meu emprego sem motivo aparente e passei a ficar os dias em casa. E recebi o primeiro tapa no rosto, que se seguiram a outros que se repetiam com mais outros. Todavia eu não podia mais sair do seu lado. Estava sem trabalho, sem renda. E me tornei sua refém.
Recordo-me do dia em que sentou sobre mim. Bateu no meu rosto com mão aberta. Cheguei ao hospital com deslocamento de retina. Recusei-me a acusá-lo de agressão. Telefonei para minha amiga, aquela que antes morava comigo. Voltamos a morar juntas.
Livrei-me da tua mão pesada. E você gritava enquanto eu saía com minhas malas. Procurei trabalho. Nunca conseguia. Todos se recusavam a me contratar. Tentei me reerguer. Minha amiga emprestou dinheiro para eu comprar uma máquina para fazer roupas íntimas. Convidei revendedoras e oferecia meus panos nas ruas da cidade.
Um fiscal apareceu em um mês e perguntou se minha empresa estava registrada. Disse que ainda não. Perdi minha máquina e meu trabalho. Endividei-me, pois ainda não tinha pagado o empréstimo a minha amiga e nem os últimos fornecedores. Procurei um banco. Recusaram-se a oferecer empréstimo. Tentei recomeçar. Porém o cartão da minha conta estava bloqueado e surgiu uma dívida em um cartão de crédito que, juro, nunca tive.
Minha amiga recebeu ordem de despejo. Mostrou a imobiliária os canhotos dos aluguéis pagos, entretanto não aceitaram como prova. Eu e ela fomos para a rua. Dormimos em uma pensão acompanhadas por ratos e um cheiro de urina que sinto enquanto agora escrevo. Nenhuma das duas tinha família para recorrer. Éramos sós.
Ela tentou saber quanto dinheiro ainda tinha na conta. Mas seu cartão estava bloqueado. Não tinha previsão de volta. E fomos para a rua em três dias. Ela perdeu o emprego, assim como eu, sem motivos aparentes. Saíamos juntas a procurar trabalho. Lavávamos-nos em banheiros públicos. Dormíamos em albergues, fugindo dos cheiros humanos e dos mendigos que queriam nos estuprar.
Lembrava-me de ti e de teus lençóis sempre limpos.
A cada porta que batíamos recebíamos um não. E isso se repetiu dezenas de vezes. Eu e ela não passávamos nem da primeira etapa dos testes de emprego. Um dos homens que se recusou a me contratar chamou-me para conversar no corredor da empresa.
Estranhei. E daquela boca cercada por bochechas enormes e suarenteas vieram as frases que nunca esqueci.
– Não sei o que fez para ele, moça, mas o seu ex-namorado mandou que ninguém na cidade a contrate. Ele é um um lobista famoso, moça. Conhece todos os políticos e pode derrubar qualquer empresa apenas mandando cobrar nossas dívidas com o governo.
Vieram lágrimas que caiam pelo meu rosto e pareciam afundar no meu peito. Caminhei mais de meia uma hora te seu apartamento e no percurso veio o ódio. E era o suficiente para matá-lo a socos. O zelador me deixou entrar. A porta do seu apartamento estava aberta e você nu no meio da sala.
– Por quê faz isso comigo? – gritei. E você apenas sorria. Fiz a mesma pergunta várias vezes e cada vez com mais potência. E você apenas sorria. Aproximei-me. Queria que ouvisse ainda mais meus gritos até que eu repetia apenas o por quê. E você apenas sorria. Bati em seu rosto e recebi socos em minha cabeça, em meus seios, em meus braços. Caí e fui chutada com seus sapatos. Sim, nem havia percebido que estava nu de sapatos.
E doía. Desfaleci.
Recobrei os sentidos. Eu estava sobre o parapeito da cobertura de um prédio. Se eu me movimentasse mais um pouco, cairia. Tentei gritar, mas a voz não vinha. Nem voz, nem lágrimas. A respiração parou e senti vontade de rir, mesmo sem ar. Você queria que eu caísse de um prédio? Eu seria registrada como suicida? Queria um crime perfeito? Dormi.
Acordei de madrugada, queimada pelo sol e dolorida. Levantei-me para descer as escadas.
A porta metálica que dava acesso ao prédio estava trancada. Soquei e chutei a porta. E tentei gritar. Ninguém respondeu. Fiquei ali mais uns dois dias, acho. Usava a mesma blusa de alcinha do dia em que o conheci. E a mesma saia, que desbotou.
O segurança do prédio abriu a porta. Expulsou-me dali a vassouradas.
– Saia, mendiga. Quem deixou você entrar nesse prédio? Saia. Corri pelas escadas.
No saguão do edifício eu me vi de relance no espelho. Estava sem alguns dentes e com sinais de sangue seco pelo corpo. Hematomas nos olhos, nos braços e em todos os lugares que doíam, que parecia ser o corpo inteiro. Caminhei para trás de uma lata de lixo. Comi um pedaço de pão mofado e dormi. Acordei cercada por mendigos. Um deles tinha uma barba longa e branca e tentou pegar nos meus seios.
– Sai daqui – disse. Espantei-me por ouvir minha própria voz, rouca e envelhecida.
Quis correr, mas conseguia apenas caminhar mancando. Entrei em uma igreja. Um padre pediu para eu ir embora. Implorei para ficar e ele exigiu que antes eu tomasse banho. Concordei. Levou-me ao pátio da igreja e me molhou com uma mangueira. Acordei. Queria tirar os trapos que eu vestia, mas tinha vergonha de fazer isso em frente ao padre.
– Freira Carmina, venha me ajudar – cantarolou o padre, como se lê-se meus pensamentos. Apareceu uma mulher de nariz adunco, em forma de gancho, e repleta de rugas. O rosto era coberto pelo manto preto das freiras. Era lenta e pesada.
– Vou te dar um vestido, senhora.
Senhora? Será que disse isso por respeito ou porque envelheci nesses meses. Até há pouco tempo me chamavam de mulher, garota ou menina. Nunca de senhora.
Ganhei uma camisola branca e puída. Senti-me como se estivesse em um vestido de festa. Ela me levou pela mão, com seu passo lento, para o porão da igreja. E lá vi mendigos velhos, doentes, deitados em camas de madeira. O lugar fedia a mercúrio e água oxigenada.
A freira me deitou em um colchão e ali dormi. Sonhei com minha mãe. Eu nunca a conheci. Fui criada pela minha tia-avó. Você sabe. Eu te contei ao final de uma das nossas noites de amor. Mas nesse sonho eu a via me pegando no colo. Dando-me mamadeira e beijando meu rosto. Via seu sorriso e ela repetindo meu nome. Acordei e vi a freira.
– Mãe – sussurrei.
A freira tremeu. Colocou a mão em meu rosto e disse que eu ardia em febre. Pôs gelo em meu corpo e dormi novamente, sonhando que eu era menina e corria pelo pátio de casa em que fui criada. Chamava por minha mãe. E ninguém aparecia. As portas e janelas estavam fechadas.
Na cama do porão da igreja, comia sopas e tomava água. E me fortaleci. Levantei-me em duas semanas e já ajudava as freiras a cuidar dos mendigos. E observava aquela freira que me ajudou como se fosse minha mãe. Acarinhava suas mãos rugosas e em troca eu recebia cafuné.
Consegui trabalho. Dobrava e cortava panfletos e jornais em uma gráfica da igreja. Dormia em uma pensão para mulheres ali perto. Comia massa pura no almoço e pão com manteiga na janta. Mas estava feliz. Nunca mais soube da amiga que morava comigo. Sumiu. Nem quis a procurar.
Imaginei que você deve ter pensado que eu estava morta. Se encontrasse minha amiga, provavelmente você ia descobrir que eu estava viva. Ia começar a me perseguir de novo. Ficava horas no escuro tentando imaginar um motivo para você sentir ódio de mim. Nunca descobri. Parecia que eu era um rato de laboratório, um experimento científico de uma criança cruel.
Conversava com a freira e ela pedia para eu o perdoar. Concordava, verbalmente, mas nunca consegui deixar de pensar em vingança. Você destruiu minha vida. E eu queria destruir a sua. A freira morreu, em uma tarde de domingo. Chorei e pedi a deus para morrer com ela. Essa era a única pessoa que me escutava. Era a única que me acalmava.
Parei de trabalhar na gráfica e passava os dias na pensão, sozinha em minha cama. Falei com o padre e ele conseguiu um trabalho em um lugar que não desejo revelar. Comprei um velho computador, com um monitor preto e branco.
Comecei a escrever nossa história. E descobri que essa será minha vingança: descobrir quem você é, porque quis me destruir e colar a sua e a nossa história pelas ruas da cidade. Ainda tenho lágrimas nos meus olhos. Contudo eu juro: sentirei orgulho de mim. Serei forte.
– O horário do almoço é um reencontro com a vida – você disse. Corei e correspondi ao seu sorrir.
– Nem me fale. Meu dia ainda será longo – respondi.
Continuou a mirar meus olhos e me falou sobre uma escritora, a Clarice Lispector. Estudei seus contos na escola e aquela lembrança me deixou feliz. Falei sobre quando fiz cursinho pré-vestibular, meus colegas e amores e parei um instante. Nunca havia conversado tanto com uma pessoa que nem sabia quem era. Somente via que você usava calça social preta, sapatos, camisa social amarela, penteado de menino que vai para a escola e sorriso de dentes brancos e perfeitos.
Envergonhei-me dos meus cabelos castanhos desgrenhados, minhas olheiras de quem acordou de madrugada para ir trabalhar e a blusa, cujas alcinhas insistiam em cair pelos braços. Orgulhava-me apenas da minha saia preta, as meias calças e o sapato preto.
Trocamos telefones. À noite, você ligou. Aceitei jantar. Nunca havia ido a um restaurante japonês. Vi isso apenas em novelas. Gostei de sentar-me no chão naqueles tapetes de bambu, os tatames, e comer com os pauzinhos. O nome é rachi? Você contou piadas. Disse que era contador e o quanto gostava de planilhas Excel. Eu, como secretária, mexia com essas planilhas, também.
– Conheci o arquipélago de Fernando de Noronha ano passado. Mergulhei mais de 40 metros no Pontal do Norte – você falou e me convidou para ver as fotos em sua casa. Aceitei como seu eu não soubesse o que desejava. Claro que eu sabia, pois queria o mesmo que você. Em sua casa, tomei café olhando para a vista dos prédios sobre a cidade, tão diferente da casa de periferia, que e divida com uma amiga, onde mirávamos apenas muros.
Fizemos amor em lençóis perfumados isso se repetiu por três meses. Nunca deveria ter me entregado tão rápido. Nunca tive dias tão prazerosos. Nós, recobertos de suor. Ia trabalhar exausta e feliz. Deixei de morar com minha amiga. Foi difícil, para ela, pagar sozinha o aluguel. Nem desconfiei das vezes em que você recebia telefonemas de trabalho e irritava-se. Parecia normal gritar quando se tratava de trabalho. Como fui boba. Você torceu meu braço na saída de um restaurante porque esqueci o casaco e quis voltar para pegá-lo. Pensei que estivesse bêbado.
Perdi meu emprego sem motivo aparente e passei a ficar os dias em casa. E recebi o primeiro tapa no rosto, que se seguiram a outros que se repetiam com mais outros. Todavia eu não podia mais sair do seu lado. Estava sem trabalho, sem renda. E me tornei sua refém.
Recordo-me do dia em que sentou sobre mim. Bateu no meu rosto com mão aberta. Cheguei ao hospital com deslocamento de retina. Recusei-me a acusá-lo de agressão. Telefonei para minha amiga, aquela que antes morava comigo. Voltamos a morar juntas.
Livrei-me da tua mão pesada. E você gritava enquanto eu saía com minhas malas. Procurei trabalho. Nunca conseguia. Todos se recusavam a me contratar. Tentei me reerguer. Minha amiga emprestou dinheiro para eu comprar uma máquina para fazer roupas íntimas. Convidei revendedoras e oferecia meus panos nas ruas da cidade.
Um fiscal apareceu em um mês e perguntou se minha empresa estava registrada. Disse que ainda não. Perdi minha máquina e meu trabalho. Endividei-me, pois ainda não tinha pagado o empréstimo a minha amiga e nem os últimos fornecedores. Procurei um banco. Recusaram-se a oferecer empréstimo. Tentei recomeçar. Porém o cartão da minha conta estava bloqueado e surgiu uma dívida em um cartão de crédito que, juro, nunca tive.
Minha amiga recebeu ordem de despejo. Mostrou a imobiliária os canhotos dos aluguéis pagos, entretanto não aceitaram como prova. Eu e ela fomos para a rua. Dormimos em uma pensão acompanhadas por ratos e um cheiro de urina que sinto enquanto agora escrevo. Nenhuma das duas tinha família para recorrer. Éramos sós.
Ela tentou saber quanto dinheiro ainda tinha na conta. Mas seu cartão estava bloqueado. Não tinha previsão de volta. E fomos para a rua em três dias. Ela perdeu o emprego, assim como eu, sem motivos aparentes. Saíamos juntas a procurar trabalho. Lavávamos-nos em banheiros públicos. Dormíamos em albergues, fugindo dos cheiros humanos e dos mendigos que queriam nos estuprar.
Lembrava-me de ti e de teus lençóis sempre limpos.
A cada porta que batíamos recebíamos um não. E isso se repetiu dezenas de vezes. Eu e ela não passávamos nem da primeira etapa dos testes de emprego. Um dos homens que se recusou a me contratar chamou-me para conversar no corredor da empresa.
Estranhei. E daquela boca cercada por bochechas enormes e suarenteas vieram as frases que nunca esqueci.
– Não sei o que fez para ele, moça, mas o seu ex-namorado mandou que ninguém na cidade a contrate. Ele é um um lobista famoso, moça. Conhece todos os políticos e pode derrubar qualquer empresa apenas mandando cobrar nossas dívidas com o governo.
Vieram lágrimas que caiam pelo meu rosto e pareciam afundar no meu peito. Caminhei mais de meia uma hora te seu apartamento e no percurso veio o ódio. E era o suficiente para matá-lo a socos. O zelador me deixou entrar. A porta do seu apartamento estava aberta e você nu no meio da sala.
– Por quê faz isso comigo? – gritei. E você apenas sorria. Fiz a mesma pergunta várias vezes e cada vez com mais potência. E você apenas sorria. Aproximei-me. Queria que ouvisse ainda mais meus gritos até que eu repetia apenas o por quê. E você apenas sorria. Bati em seu rosto e recebi socos em minha cabeça, em meus seios, em meus braços. Caí e fui chutada com seus sapatos. Sim, nem havia percebido que estava nu de sapatos.
E doía. Desfaleci.
Recobrei os sentidos. Eu estava sobre o parapeito da cobertura de um prédio. Se eu me movimentasse mais um pouco, cairia. Tentei gritar, mas a voz não vinha. Nem voz, nem lágrimas. A respiração parou e senti vontade de rir, mesmo sem ar. Você queria que eu caísse de um prédio? Eu seria registrada como suicida? Queria um crime perfeito? Dormi.
Acordei de madrugada, queimada pelo sol e dolorida. Levantei-me para descer as escadas.
A porta metálica que dava acesso ao prédio estava trancada. Soquei e chutei a porta. E tentei gritar. Ninguém respondeu. Fiquei ali mais uns dois dias, acho. Usava a mesma blusa de alcinha do dia em que o conheci. E a mesma saia, que desbotou.
O segurança do prédio abriu a porta. Expulsou-me dali a vassouradas.
– Saia, mendiga. Quem deixou você entrar nesse prédio? Saia. Corri pelas escadas.
No saguão do edifício eu me vi de relance no espelho. Estava sem alguns dentes e com sinais de sangue seco pelo corpo. Hematomas nos olhos, nos braços e em todos os lugares que doíam, que parecia ser o corpo inteiro. Caminhei para trás de uma lata de lixo. Comi um pedaço de pão mofado e dormi. Acordei cercada por mendigos. Um deles tinha uma barba longa e branca e tentou pegar nos meus seios.
– Sai daqui – disse. Espantei-me por ouvir minha própria voz, rouca e envelhecida.
Quis correr, mas conseguia apenas caminhar mancando. Entrei em uma igreja. Um padre pediu para eu ir embora. Implorei para ficar e ele exigiu que antes eu tomasse banho. Concordei. Levou-me ao pátio da igreja e me molhou com uma mangueira. Acordei. Queria tirar os trapos que eu vestia, mas tinha vergonha de fazer isso em frente ao padre.
– Freira Carmina, venha me ajudar – cantarolou o padre, como se lê-se meus pensamentos. Apareceu uma mulher de nariz adunco, em forma de gancho, e repleta de rugas. O rosto era coberto pelo manto preto das freiras. Era lenta e pesada.
– Vou te dar um vestido, senhora.
Senhora? Será que disse isso por respeito ou porque envelheci nesses meses. Até há pouco tempo me chamavam de mulher, garota ou menina. Nunca de senhora.
Ganhei uma camisola branca e puída. Senti-me como se estivesse em um vestido de festa. Ela me levou pela mão, com seu passo lento, para o porão da igreja. E lá vi mendigos velhos, doentes, deitados em camas de madeira. O lugar fedia a mercúrio e água oxigenada.
A freira me deitou em um colchão e ali dormi. Sonhei com minha mãe. Eu nunca a conheci. Fui criada pela minha tia-avó. Você sabe. Eu te contei ao final de uma das nossas noites de amor. Mas nesse sonho eu a via me pegando no colo. Dando-me mamadeira e beijando meu rosto. Via seu sorriso e ela repetindo meu nome. Acordei e vi a freira.
– Mãe – sussurrei.
A freira tremeu. Colocou a mão em meu rosto e disse que eu ardia em febre. Pôs gelo em meu corpo e dormi novamente, sonhando que eu era menina e corria pelo pátio de casa em que fui criada. Chamava por minha mãe. E ninguém aparecia. As portas e janelas estavam fechadas.
Na cama do porão da igreja, comia sopas e tomava água. E me fortaleci. Levantei-me em duas semanas e já ajudava as freiras a cuidar dos mendigos. E observava aquela freira que me ajudou como se fosse minha mãe. Acarinhava suas mãos rugosas e em troca eu recebia cafuné.
Consegui trabalho. Dobrava e cortava panfletos e jornais em uma gráfica da igreja. Dormia em uma pensão para mulheres ali perto. Comia massa pura no almoço e pão com manteiga na janta. Mas estava feliz. Nunca mais soube da amiga que morava comigo. Sumiu. Nem quis a procurar.
Imaginei que você deve ter pensado que eu estava morta. Se encontrasse minha amiga, provavelmente você ia descobrir que eu estava viva. Ia começar a me perseguir de novo. Ficava horas no escuro tentando imaginar um motivo para você sentir ódio de mim. Nunca descobri. Parecia que eu era um rato de laboratório, um experimento científico de uma criança cruel.
Conversava com a freira e ela pedia para eu o perdoar. Concordava, verbalmente, mas nunca consegui deixar de pensar em vingança. Você destruiu minha vida. E eu queria destruir a sua. A freira morreu, em uma tarde de domingo. Chorei e pedi a deus para morrer com ela. Essa era a única pessoa que me escutava. Era a única que me acalmava.
Parei de trabalhar na gráfica e passava os dias na pensão, sozinha em minha cama. Falei com o padre e ele conseguiu um trabalho em um lugar que não desejo revelar. Comprei um velho computador, com um monitor preto e branco.
Comecei a escrever nossa história. E descobri que essa será minha vingança: descobrir quem você é, porque quis me destruir e colar a sua e a nossa história pelas ruas da cidade. Ainda tenho lágrimas nos meus olhos. Contudo eu juro: sentirei orgulho de mim. Serei forte.
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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Triângulo de Rodrigo - por Leandro Malósi Dóro
Mariana tinha rosto no formato de coração, olhos iguais a nozes e cada lábios semelhantes a pimenta. A pele, alva, branca, parecia que nunca havia tomado sol, como se tivesse vivido os últimos anos entre livros. Porém ela aparentava uns 19 anos, sob seus cabelos chanell escuros. E falava de festas, mais do que de livros.
Rodrigo preferia Isabela. Essa era mais velha, mas fisicamente parecida com Mariana. A diferença eram os cabelos: loiros e longos em Isabela. Mas afora isso, as duas eram iguais. Ele encarou Mariana nos olhos, enquanto visitava a coordenação do curso onde trabalhava como professor de História.
- Professor Rodrigo, deseja alguma coisa – disse Mariana, a secretária do curso, ao docente de óculos e corte de cabelos ao estilo Super-Homem.
- Por ora, nada Mariana. Obrigado. Mas ao final da aula, gostaria de conversar com você – respondeu, esboçando um sorriso no canto dos lábios.
Ela compreendera e ao final das aulas, daquela noite, Rodrigo ofereceu carona a ela. E isso se repetiu até que ele a viu nua, em pé, em um quarto de motel, o ventre recorberto de penugem, as coxas úmidas e um sorriso de fêmea satisfeita. Para Rodrigo, ela era de barro. E assim passou a tratá-la, como uma escultura a ser moldada.
Mariana queria cursar Administração. Almejava gerenciar a Secretaria Geral de Cursos. Rodrigo contava a ela sobre a vida de Isabela: cursou Letras. Fez Mestrado e Doutorado. Lecionou em Buenos Aires e agora trabalhava em Florianópolis como professora da Universidade Federal de Santa Catarina.
Criou a teoria dos Cartéis Literários, em que buscava comprovar que determinados grupos de escritores protegem uns aos outros para serem aceitos pela sociedade. E Mariana escutava. Perguntou se Rodrigo já namorou Isabela. Ele negou, todavia escondeu sobre o guarda-roupas a caixa com fotos e cartas do semestre em que viveu com a professora de Letras. Rodrigo namorou Isabela antes dela passar no mestrado e ir para a Argentina.
E Mariana e Rodrigo viveram juntos. Convenceu-a cursar Letras. Ela desistiu de estudar Administração, mas citava isso nas mesas de bares, entre amigos. Muitos estranhavam ela desconhecer determinados autores. Falava mais sobre gestão do que de literatura. Muitos sugeriam: creio que você é mais moldada para a Administração. Rodrigo interrompia a conversa, dizendo que via mais futuro para ela nas Letras.
Dona Laura, mãe de Mariana, visitava a filha todas as semanas. Admirava a beleza do piso de tabuão, a biblioteca com quase um milhar de livros e os sofás que deveriam ter custado o valor igual a três conjuntos de sofás dos mais comuns. Rodrigo visitava, às vezes, Dona Laura, Seu Augusto e as três irmãs de Mariana. E observava as paredes de madeira, o pátio gramado, o sofá abaloado de tantos que ali sentaram e o televisor de 20 polegadas que às vezes ficava preto e branco.
Um artigo científico de Isabela foi publicado na revista da Faculdade de Letras da universidade. Mariana leu: Formação dos Cartéis Literários na Geração 90. Procurou, na internet, fotos de Isabela. Encontrou. E considerou-se muito parecida com ela, entretanto nada comentou com ninguém.
Mariana lia livros ao lado de Rodrigo. Visitava bibliotecas. Era sabatinada sobre o os principais escritores. Ganhava roupas do namorado: calças, camisetas e tênis que pareciam tão diferentes dela. Entretanto, aceitava e usava. Até o dia em que seu lado do guarda-roupa não possuía resquício dos vestidos que amava.
E, igual a nuvens, planejaram a mudar-se de cidade, lentamente. Foram a Florianópolis. Rodrigo passou a lecionar em um curso de pós-graduação e Mariana a concluir o curso de Letras em uma universidade privada. Sugeriu ao namorado visitar a professora Isabela. Ele recusou-se.
- Outra hora – respondeu. E esse diálogo se repetiu mais umas três vezes até que Mariana desistiu de provocá-lo.
Ela estranhava não sentir ciúmes de Isabela. Porém pensava às vezes em deixar seus cabelos crescerem até os ombros. Fazer luzes, para aloirá-los. Porém sentia-se desconfortável ao imaginar-se assim.
Ela conseguiu emprego como secretária de uma pediatra. Levava, para estudar, os livros do curso e alguns da biblioteca particular de Rodrigo. Em uma das vezes em que vasculhava essa pequena biblioteca, encontrou uma caixa. Viu as fotos de Isabela. Leu as cartas trocadas entre os dois. E os pedaços de papéis com rascunhos de amor. Pensou nisso, em silêncio. Procurou, novamente, as fotos de Isabela na internet. Comparou-se com ela no espelho.
Recordava-se das sugestões de Rodrigo: faça Mestrado, igual Isabela. Faça doutorado, igual Isabela. E pensava novamente porque nunca imaginava sentir ciúmes de Isabela. Concluiu ter confiança nos próprios seios, pernas e ancas que abrigavam o semém de seu amado todas as noites. Em um ímpeto, teve vontade de pedir transferência para o curso de Administração, contudo estava no final de Letras.
Todavia, decidiu-se: nunca deixará os cabelos crescerem.
Rodrigo preferia Isabela. Essa era mais velha, mas fisicamente parecida com Mariana. A diferença eram os cabelos: loiros e longos em Isabela. Mas afora isso, as duas eram iguais. Ele encarou Mariana nos olhos, enquanto visitava a coordenação do curso onde trabalhava como professor de História.
- Professor Rodrigo, deseja alguma coisa – disse Mariana, a secretária do curso, ao docente de óculos e corte de cabelos ao estilo Super-Homem.
- Por ora, nada Mariana. Obrigado. Mas ao final da aula, gostaria de conversar com você – respondeu, esboçando um sorriso no canto dos lábios.
Ela compreendera e ao final das aulas, daquela noite, Rodrigo ofereceu carona a ela. E isso se repetiu até que ele a viu nua, em pé, em um quarto de motel, o ventre recorberto de penugem, as coxas úmidas e um sorriso de fêmea satisfeita. Para Rodrigo, ela era de barro. E assim passou a tratá-la, como uma escultura a ser moldada.
Mariana queria cursar Administração. Almejava gerenciar a Secretaria Geral de Cursos. Rodrigo contava a ela sobre a vida de Isabela: cursou Letras. Fez Mestrado e Doutorado. Lecionou em Buenos Aires e agora trabalhava em Florianópolis como professora da Universidade Federal de Santa Catarina.
Criou a teoria dos Cartéis Literários, em que buscava comprovar que determinados grupos de escritores protegem uns aos outros para serem aceitos pela sociedade. E Mariana escutava. Perguntou se Rodrigo já namorou Isabela. Ele negou, todavia escondeu sobre o guarda-roupas a caixa com fotos e cartas do semestre em que viveu com a professora de Letras. Rodrigo namorou Isabela antes dela passar no mestrado e ir para a Argentina.
E Mariana e Rodrigo viveram juntos. Convenceu-a cursar Letras. Ela desistiu de estudar Administração, mas citava isso nas mesas de bares, entre amigos. Muitos estranhavam ela desconhecer determinados autores. Falava mais sobre gestão do que de literatura. Muitos sugeriam: creio que você é mais moldada para a Administração. Rodrigo interrompia a conversa, dizendo que via mais futuro para ela nas Letras.
Dona Laura, mãe de Mariana, visitava a filha todas as semanas. Admirava a beleza do piso de tabuão, a biblioteca com quase um milhar de livros e os sofás que deveriam ter custado o valor igual a três conjuntos de sofás dos mais comuns. Rodrigo visitava, às vezes, Dona Laura, Seu Augusto e as três irmãs de Mariana. E observava as paredes de madeira, o pátio gramado, o sofá abaloado de tantos que ali sentaram e o televisor de 20 polegadas que às vezes ficava preto e branco.
Um artigo científico de Isabela foi publicado na revista da Faculdade de Letras da universidade. Mariana leu: Formação dos Cartéis Literários na Geração 90. Procurou, na internet, fotos de Isabela. Encontrou. E considerou-se muito parecida com ela, entretanto nada comentou com ninguém.
Mariana lia livros ao lado de Rodrigo. Visitava bibliotecas. Era sabatinada sobre o os principais escritores. Ganhava roupas do namorado: calças, camisetas e tênis que pareciam tão diferentes dela. Entretanto, aceitava e usava. Até o dia em que seu lado do guarda-roupa não possuía resquício dos vestidos que amava.
E, igual a nuvens, planejaram a mudar-se de cidade, lentamente. Foram a Florianópolis. Rodrigo passou a lecionar em um curso de pós-graduação e Mariana a concluir o curso de Letras em uma universidade privada. Sugeriu ao namorado visitar a professora Isabela. Ele recusou-se.
- Outra hora – respondeu. E esse diálogo se repetiu mais umas três vezes até que Mariana desistiu de provocá-lo.
Ela estranhava não sentir ciúmes de Isabela. Porém pensava às vezes em deixar seus cabelos crescerem até os ombros. Fazer luzes, para aloirá-los. Porém sentia-se desconfortável ao imaginar-se assim.
Ela conseguiu emprego como secretária de uma pediatra. Levava, para estudar, os livros do curso e alguns da biblioteca particular de Rodrigo. Em uma das vezes em que vasculhava essa pequena biblioteca, encontrou uma caixa. Viu as fotos de Isabela. Leu as cartas trocadas entre os dois. E os pedaços de papéis com rascunhos de amor. Pensou nisso, em silêncio. Procurou, novamente, as fotos de Isabela na internet. Comparou-se com ela no espelho.
Recordava-se das sugestões de Rodrigo: faça Mestrado, igual Isabela. Faça doutorado, igual Isabela. E pensava novamente porque nunca imaginava sentir ciúmes de Isabela. Concluiu ter confiança nos próprios seios, pernas e ancas que abrigavam o semém de seu amado todas as noites. Em um ímpeto, teve vontade de pedir transferência para o curso de Administração, contudo estava no final de Letras.
Todavia, decidiu-se: nunca deixará os cabelos crescerem.
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sábado, 23 de fevereiro de 2008
Nonoai — conto em construção — por Leandro Malósi Dóro
Para Marcelo Pércio Madalosso Machado, o Hulck
A mancha marrom de rabo longo passa pelas gramíneas e se esconde atrás de uma açoita-cavalo. Os cerca de vinte metros da copa dessa árvore bailam graças ao vento minuano, que trespassa a camisa xadrez de Natalino, cuja pele, engrossada e enegrecida pelo sol, salpica-se de suor da tarde. Persegue há meia hora uma raposa matreira.
Ele carrega uma garrucha de dois tiros — uma espécie de revólver de dois canos que pertencera ao seu nono, que a recebera em troca de um naco daquelas mesmas terras onde o descendente de italianos agora caça. Os fios de luz que surgem por entre as folhas da açoita-cavalo revelam as cores que podem ser de seu alvo.
Precisa voltar para casa com aquele animal morto. A cana-de-açúcar, colhida nas semanas anteriores, já foi transformada em caldo. Seus filhos a colocaram no alambique que aguardava o cadáver daquele carnívoro para compor o sabor da cachaça. Raposa era o segredo da aguardente de Nonoai. Sabiam disso todos os doze mil nativos daquela cidade gaúcha próxima ao rio Uruguai. O verde da mata foi interrompido pelo bege avermelhado de uma pele flácida. Natalino aproxima-se, evitando as folhas secas. É Teodora, a santeira. Nua, manipula um naco de barro que aparenta ser um Santo Antônio. Observam-na algumas estátuas de São Pedro, Nossa Senhora, Jesus Cristo e outros santos de argila recém-feitos.
Teodora tem cabelos acinzentados e longos, nariz adunco — igual Natalino — e corpo escalavrado pela idade. A pele rugosa se desprega dos músculos, ainda fortes, de mulher que trabalha no roçado. Natalino recorda que também possui pele que se desprende da carne. Lembra de quando brincavam, ele e ela, com ossos de galinha ou gado pelas ruas de chão batido. Costelas e fêmures serviam para jogo do osso ou de soldados de exércitos de imaginação.
Cresceram e a viu de vestido de chita na crisma. Beijou-a nos lábios atrás da Igreja e saiu correndo, envergonhado, para brincar com os amigos. Ia a casa dela, quando seus pais estavam na roça, e a levava para a cascata das Andorinhas. Ali, envolto pelo retumbar da queda d´água, a pressionava contra as árvores e folhas, esfregando-se até lambuzar as calças.
Um dos irmãos de Teodora os encontrou em uma tarde outonal. Natalino apanhou até perder um molar e a chance de ficar sozinho com sua amada. Recebeu sermão em casa. Sua mãe, de lenço na cabeça, unia as mãos em uma prece, pedindo a Deus que seu filho fosse perdoado do pecado da luxúria.
Nenhum dos seis irmãos de Teodora os deixou ficarem a sós. Tornaram-se, os irmãos dela e os dele, inimigos de escola e adversários nas partidas de futebol. Ambas as famílias possuíam alambiques e representantes comerciais diferentes. As duas famílias encontravam-se no bar. Riam, brigavam ou permaneciam indiferentes, até que alguns de ambas as famílias decidiram mudar-se para outras cidades.
Trajano, novo inspetor de polícia, foi transferido para Nonoai. Teodora e ele se casaram e Natalino embebedou-se na praça em frente à igreja. Dizia que ia entrar a cavalo, para interromper a cerimônia, e levar a amada para Passo Fundo, onde seriam felizes longe dos irmãos daquela mulher.
Dormiu e acordou para ver aquele casal, quase diariamente, passear pelas ruas da cidade e viajar para municípios próximos, voltando abarrotados de compras. Natalino freqüentava as rameiras da cidade.
Eram oito as prostitutas do bordel — igual número de filhos que Teodora queria. Porém Trajano, transferido para Erechim, decidiu deixá-la em Nonoai, desonrada e apenas com uma filha. Para as fofoqueiras da cidade, Teodora estava enterrada viva.
Natalino, esperançoso, visitava-a de madrugada com bafo de pinga e olhar turvo. Era rechaçado aos gritos e vassouradas. Ele se munia de um catarro viscoso que expelia aos pés daquela desalmada. Ela, em resposta, mostrava-lhe o anel de casamento como se fosse uma cruz que espanta vampiros. Ele partia para casa, onde o esperava uma bugra que estava em Nonoai para trabalhar na casa do prefeito.
Os filhos vieram para Natalino. Quis oito para mostrar a Teodora sua fertilidade. E conseguiu. A bugra silenciosa pariu e criou a todos, enquanto o corpo daquela índia se curvava como flor que murcha em vaso na sala.
Teodora tornara-se artesã. Sumia na mata nos meses de verão. A filha levava alguns alimentos e retornava para os afazeres do lar. Ninguém poderia importuná-la naquele período sagrado, onde a solidão daria alma aos pedaços de argila.
Até Natalino respeitava isso. Porém naquela tarde a encontrou, ali, nua, moldando cada parte do santo para consagrá-lo a deus — o mesmo deus que decidira separar Natalino e Teodora.
Viu novamente a sombra marrom que perseguia no principio. Espreitava a santeira. Disparou os dois tiros da garrucha. Um acertou a raposa. Outro, o Santo Antônio que Teodora moldava. Ela gritou de espanto, ao ver sangrar sua mão esquerda, a do anel de casamento, que nunca deixara de usar. Natalino deu passos decididos. Atravessou a clareira onde a mulher e os santos estavam.
Viu lágrimas naquele rosto idoso, cujos traços principais conservavam uma jovialidade sofrida. Escutou seus lamentos de dor e viu lágrimas percorrerem o rosto na velocidade de uma bala ou de uma vida. Pegou a raposa morta. Cumprimentou a mulher com a aba do chapéu e voltou à cidade, calado.
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